Como o Manchester United se destruiu? A queda do gigante

 
“O’Shea Rooney Carrick.jpg” por Gordon Flood / CC BY 2.0

A derrocada do Manchester United, que transformou o clube mais temido da Inglaterra em um sinônimo de crise na última década, foi provocada por uma combinação de negligência financeira dos proprietários, falta de comando no futebol após a saída de Sir Alex Ferguson e contratações bilionárias sem critério.

Em vez de um colapso repentino, os Red Devils viveram uma destruição estrutural e gradativa ao longo dos anos, sustentada por quatro pilares principais:

1. A aquisição parasitária da Família Glazer (2005)

A raiz dos problemas financeiros começou anos antes do declínio técnico. Em 2005, a família americana Glazer comprou o Manchester United através de uma manobra financeira altamente controversa (leveraged buyout). Eles pegaram empréstimos massivos para adquirir as ações e transferiram essa dívida bilionária para o próprio clube pagar.

Enquanto outros bilionários injetam dinheiro em suas equipes, os Glazers retiraram mais de 1 bilhão de libras do United em dividendos e juros de dívida ao longo dos anos, deixando o clube afundado em uma dívida líquida histórica de mais de 1 bilhão de libras.

2. O “Efeito Vácuo” pós-Sir Alex Ferguson (2013)

Durante anos, a genialidade do técnico Sir Alex Ferguson camuflou os problemas estruturais criados pela diretoria. Ferguson acumulava os papéis de treinador, diretor e líder espiritual do clube. Quando ele se aposentou em 2013, o United não tinha nenhuma estrutura de futebol moderna para substituí-lo.

O vácuo de poder foi preenchido por executivos do setor bancário, como Ed Woodward, que priorizavam patrocínios e engajamento comercial em detrimento do desempenho esportivo dentro de campo.

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3. O “Cemitério de Craques” e os erros de mercado

Mesmo sem o dinheiro dos donos, o United gasta bilhões de libras porque arrecada muito comercialmente. O problema nunca foi a falta de dinheiro, mas como ele foi gasto ao longo dos anos:

  • Falta de filosofia: O clube passou anos contratando jogadores com base no “nome” e no apelo de marketing, e não na necessidade tática (como os casos de Alexis Sánchez, Paul Pogba e o retorno caótico de Cristiano Ronaldo).
  • Elenco retalho: Mais de dez treinadores e interinos passaram pelo cargo desde 2013 (incluindo David Moyes, Louis van Gaal, José Mourinho, Ole Gunnar Solskjær, Erik ten Hag e Rúben Amorim). Cada um exigia reforços com estilos de jogo completamente opostos, gerando um elenco inflacionado, desconexo e sem identidade.
“Manchester, Trafford – Estádio de Futebol Old Trafford – geograph.org.uk – 3725295.jpg” por Lewis Clarke / CC BY-SA 2.0

4. Sucateamento e perda de competitividade

Enquanto rivais como o Manchester City e o Liverpool construíam centros de treinamento modernos e adotavam modelos eficientes com diretores de futebol competentes, o United parou no tempo. O estádio Old Trafford sofreu com falta de manutenção crônica, e as categorias de base perderam terreno. O vestiário rachou em sucessivas crises de ego e disputas internas, destruindo a mentalidade vencedora da era de ouro.

A Nova Era de Reestruturação Crítica

A entrada do bilionário britânico Sir Jim Ratcliffe (Grupo INEOS) no início de 2024, assumindo o controle das operações de futebol, escancarou o tamanho do estrago financeiro deixado pela gestão anterior. Para evitar punições severas nas regras de sustentabilidade da Premier League, a nova gestão passou a implementar cortes drásticos de custos:

  • Demissão de mais de 250 funcionários e corte de benefícios internos.
  • Fim do contrato de embaixador de Sir Alex Ferguson para cortar despesas.
  • Até mesmo estratégias comerciais inusitadas, como vender pequenos pedaços encapsulados do antigo gramado de Old Trafford por £125 para gerar receita imediata.

Mesmo com essas reformas e investimentos mais modestos no mercado, o time continuou sofrendo dentro de campo, acumulando eliminações precoces em copas locais e amargando posições intermediárias na Premier League, mostrando que reconstruir o que foi destruído por mais de uma década levará tempo.

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William Mateus

William Mateus

Protagonista em análise de esporte. Apaixonado por tática, estatísticas e pelas grandes histórias dos bastidores do futebol mundial.

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